Baixa visão e os desafios de viajar sozinha

Viajar sozinho para muitos é um grande desafio. Ter essa primeira experiência de “total independência” por ocasião do intercâmbio torna tudo ainda mais desafiador, afinal, você está indo para um lugar onde não conhece ninguém e onde se fala outro idioma.

Esse é o meu caso. Nos meus 28 anos de vida já viajei sozinha, mas daquele tipo de viagem onde você vai sozinha para algum lugar onde mora parentes/amigos, o que é bem diferente da situação que irei vivenciar no intercâmbio.

No meu caso há, por assim dizer, um outro complicador: o fato de eu possuir baixa visão.

E aqui abro um adendo para explicar o que é isso.


  • Baixa visão ou visão subnormal

Resumidamente, dizemos que uma pessoa tem baixa visão ou visão subnormal quando apresenta 30% ou menos de visão no melhor olho, após todos os procedimentos clínicos, cirúrgicos e correção com óculos comuns. Ou seja, pessoas com, por exemplo, Miopia/Astigmatismo/Hipermetropia, que ao utilizar óculos ou lentes de contato vêem nitidamente, NÃO TÊM BAIXA VISÃO. A baixa acuidade visual ocorre quando o nível de visão, mesmo com a melhor correção óptica permanece inferior ao considerado “normal”.

Essas pessoas apresentam dificuldades de ver detalhes no dia a dia. Por exemplo, vêem as pessoas mas não reconhecem a feição a longa distância; as crianças enxergam a lousa, porém, não identificam as palavras; no ponto de ônibus, não conseguem ler os letreiros.

Em outros termos, se está relacionado com a “acuidade visual” (sigla AV), ou seja, a aptidão do olho para distinguir os detalhes espaciais, de identificar a forma e o contorno dos objetos, sendo essa condição considerada um tipo de “deficiência visual”, com registro no Código internacional de doenças – CID, H54.2 (é considerado cego quem tem acuidade visual inferior a 5%).

Se você já foi alguma vez ao médico oftalmologista provavelmente já viu essa tabela, ou ao menos uma tela em que essas letras vão sendo mostradas uma linha por vez, cada vez mais diminuindo o tamanho das letras que aparecem.

Tabela de Snellen (utilizada para aferir a acuidade visual) Uma pessoa com baixa visão irá ler no máximo até a terceira linha dessa tabela.

A forma mais correta para medir a acuidade é no consultório oftalmológico, e utiliza-se, normalmente, a “Tabela de Snellen”. A tabela contém uma série progressiva de fileiras de letras. O teste, então, consiste em ler essas linhas de letras que vão diminuindo sucessivamente. A avaliação é realizada com a tabela posicionada a uma distância padrão da pessoa a ser testada. Cada linha da tabela corresponde a uma fração, que representa uma acuidade visual. E cada olho deve ser testado separadamente.

A acuidade aparece marcada por dois números, em forma de fração, como por exemplo, 20/100. O primeiro número é a distância entre o quadro e o paciente e o segundo representa a fileira das menores letras que o paciente consegue ler. Cada fileira da Tabela de Snellen contém um número que corresponde à distância na qual um olho “normal” consegue ler as letras desta fileira.

Por exemplo, as letras da fileira “100” podem ser lidas por um vidente total à distância de 100 metros. Isso significa que um paciente com acuidade de 20/100 consegue ler à distância de 20 metros o que uma pessoa com acuidade visual total é capaz de ler à distância de 100 metros, lembrando que a visão 20/20  é a considerada normal.

Ao comparar diferentes níveis de visão com o considerado total, deve-se ter em mente que as pessoas são capazes de ver o mesmo objeto a distâncias distintas. Observe:

Comparando a Acuidade 20/100 com a Acuidade total.

Em primeiro lugar, deve-se reduzir a fração, dividindo o numerador e o denominador por 20: 20/100÷20/20=1/5.
Isso significa que o que um vidente total vê a 5 metros de distância, quem tem AV=20/100 (ou 20% de visão) vê a 1 metro de distância.

Comparando a Acuidade 20/200 com a Acuidade total.

Reduzindo a fração: 20/200÷20/20=1/10.
Isso significa que o que um vidente total vê a 10 metros de distância, quem tem AV=20/200 (ou 10% de visão) vê a 1 metro de distância.

 Outra maneira para comparar é pensar que: o que um vidente total consegue enxergar a 20 metros de distância, uma pessoa com AV=20/100, vê a 4 metros, outra de AV=20/200 vê a 2 metros, a de acuidade AV=20/400 vê a 1 metro.


Caso esteja se perguntando, minha visão é aproximadamente 10% do normal (as vezes consigo ler algumas letras da 3ª linha da tabela com o olho direito), e minha baixa visão decorre do fato de ser albina óculo-cutâneo.

Eu na faculdade – Para anotar algo preciso ficar com o rosto bem próximo ao papel.
Na sala de espera do consultório médico. – Normalmente não sou capaz de ler nesse tamanho que está na tela da distância de onde tirei a foto. Em relação ao banner na parede, só consigo ler o que está com letra maior (na cor branca)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O que isso representa no meu dia-a-dia?

Bom, isso dificulta para pegar ônibus, ler placa de ruas, ver mapas, enxergar o que está escrito na lousa, ler livros/textos em que o tamanho da letra é pequeno (leio literalmente com o nariz quase encostando no papel, rsrs), etc.

Metrô de Londres

Considerando a imagem acima, na hora em que for usar o metrô em Londres provavelmente serei capaz de ler o que está na placa branca apenas estando quase embaixo dela, e a preta onde aparece os horários dos trens apenas usando meu monóculo ou usando a câmera do celular para aproximar a imagem. 

Nas aulas ainda não sei como vai ser. A escola está ciente das minhas limitações, e pelo depoimento que li de uma deficiente auditiva oralizada, que fez intercâmbio pouco tempo depois de ter feito o implante coclear, eles dão todo o apoio possível, então não estou tão preocupada quanto a isso. Além disso, depois de anos na escola e faculdade já desenvolvi meus métodos para melhor acompanhar as aulas.  😉 

Não obstante, mesmo que não tivesse esses “obstáculos” a mais, ainda assim estaria um pouco nervosa/ansiosa com toda a novidade da situação. Isso é quase uma unanimidade entre as pessoas que conheço que farão /estão fazendo intercâmbio.

É algo muito natural o receio do desconhecido, e sendo uma mulher nossa preocupação acaba sendo ainda maior, principalmente porque crescemos e vivemos em uma sociedade onde os relatos de violência são inúmeros.

Esse relato foi para dizer a você que também passa por seus momentos de ansiedade/receio do desconhecido: “você não está sozinho!”, e a explicação sobre minha baixa visão é para entenderem o porque de nos futuros posts aparecerem menções sobre questões atinentes à acessibilidade, além de demonstrar que mesmo uma pessoa com limitações ─ sejam físicas, visuais, auditivas, etc ─ pode sim encarar o desafio de um intercâmbio, de viajar sozinha, e qualquer outra coisa que ela quiser fazer.  😀 

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